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Ontem doeu, viu? Eu podia me preservar um pouco mais e calar essas palavras que me tomam a cabeça desde que saí de lá, mas não consigo e acho até que não mereço. Como é que um ser tão sensível, um artista tão iluminado, pode ser capaz de tamanha falta de cuidado?

É bonito te ver cantar o amor nos palcos e foi lindo compartilhar da tua amizade fora deles também. Você é bom em transportar o dia-a-dia para outro plano e em fazer sentir com força. Que encontro poderoso e avassalador que foi o nosso. Mas depois é quase abstinência o que se sente na tua ausência. Um certo vazio estranho, a falta de cor.

Já estava difícil me entender neste estado de falta, não precisava daquele desfile insensível. Será que você só vê suas próprias dores? Ela chegou com uma roupa que era minha, e a substituição recente, o meu apagamento, ficaram desenhados para mim em detalhes gráficos até. O corpo tem memória e, por sua causa, eu tive que ficar de longe olhando enquanto ela, fantasiada de mim, dançava acolhida por esses braços que ainda sinto em minha cintura.

Sei que daqui a pouco você vai virar uma história dessas absurdas que a gente coleciona em mesas de bar, mas por enquanto saiba que isso não se faz. Achei que nossa relação poderia ter voltado ao estado da amizade inicial, da admiração mútua e que estaríamos bem, mas não preciso de amigos assim. Espero que pelo menos estas minhas palavras não encontrem um vazio como o de ontem, e que em sua vida os olhares passem a ser mais atentos.

Abraço,
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