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*******, Mais que uma carta de amor, essa aqui vai ser uma lista de elogios, pois percebi que, ao pensar nas coisas que amo em você, acabo renovando a alegria que é sentir-me parte dessa história tão linda que é a sua.         Começo elogiando uma coisa bem óbvia. Você é muito companheira dos seus amores. Companheira de missões, de viagens, de vida. Dessa qualidade fundamental, surgem outras, por exemplo: você é uma excelente anfitriã. Pode parecer besteira, mas eu acho muito bonito como você recebe bem todo mundo que chega em sua casa – e casa aqui eu amplio para sua cidade, seu país e as casas que, não sendo originalmente suas, na verdade são. Isso te presenteia com amigos no mundo todo, que lembram com carinho de um tempo em que desfrutaram desse teu companheirismo acolhedor. De boa anfitriã, sei que você pode ser uma cuidadora incrível. Lava feridas, calça sapatos, dorme de vigília... É daí que sinto que vem também outra qualidade especia...
______, Que mulher maravilhosa que você é. Tudo ao seu redor vibra em mil tons, nas incríveis possibilidades de cores que você enxerga em si, nos outros, nas paredes, no mundo. Através desses olhos lindos, observadores, potentes, acabei vendo com mais cuidado as cores de tudo também, e me sinto tão sortudo. Reconheço a sorte absurda que é estar ao teu lado e me alegro ao me ver citado em tantos planos lindos, cheios de luz, de música, de dança, de amigos e de moradias compartilhadas. Ô mulher acelerada e gata e acolhedora e sincera e poderosa e sagaz e inteligente! Nesses dias de afastamento forçado e de sofrimento coletivo, te vi recolhida em proteção e cuidados consigo e desejei profundamente te abraçar. Enxergo a tua dor, ainda que não possa medi-la, e espero que, mesmo de longe, você siga se sentindo amada e desejada. Sei e confio que em ti há uma força ancestral que há de sustentar todos os teus caminhos. De minha parte, afirmo novamente para que você não se esqueça: é com a...
____, Finalmente cheguei ao lugar que eu buscava e te escrevo sem esperar resposta. Escrevo, então, para mim? Não interessa, que maravilha! Esta é uma carta-grito, uma carta me-deixa-e-não-volta-mais. As palavras que aqui derramo vem de um lugar que quase esqueço mas existe forte e sempre: a minha carne sendo minha, a minha voz sendo a que eu escolho, letra por letra. Aqui ouso dizer: desse jeito assim, não mais, nunca mais. Eu quero um amor amor - revelado, corajoso, merecedor. Eu quero um riso lei, um olhar comovido. Eu quero o andar seguro, os caminhos multiplicados. Eu, eu, eu. E quem mais vier, graças a Deus. ______.
Dona Alice, Não sei se entendi o seu nome certo. Sua fala é baixa, introvertida e, imagino, bastante silenciada. Foi silêncio também o que me tomou quando entendi as circunstâncias terríveis do seu sofrimento. Nesses dias de conversa, todos que conheci me falaram dos filhos que perderam. Muitos anjos, com sete anos ou menos, que por motivos obscuros não "vingaram". Fome, excesso de trabalho, falta de água tratada. “Eu tive seis filhos, mas chorei muito”, me disse uma mulher, “só um deles Deus deixou comigo”. Nem sei se esses anjos todos tiveram nomes, mas o seu filho tinha. Tinha nome, profissão e um futuro imenso pela frente. Era conhecido pela comunidade e amado por muitos amigos, pelos pais e pelo irmão. Foi assassinado. Queria pedir sinceras desculpas à senhora por ter sugerido que teria sido história de briga. Eu ouvi tantas antes de ir à sua casa que achei de fazer essa pergunta injusta e agressiva. Briga coisa nenhuma, foi história de amor. O amor que ele tin...
________, Ontem doeu, viu? Eu podia me preservar um pouco mais e calar essas palavras que me tomam a cabeça desde que saí de lá, mas não consigo e acho até que não mereço. Como é que um ser tão sensível, um artista tão iluminado, pode ser capaz de tamanha falta de cuidado? É bonito te ver cantar o amor nos palcos e foi lindo compartilhar da tua amizade fora deles também. Você é bom em transportar o dia-a-dia para outro plano e em fazer sentir com força. Que encontro poderoso e avassalador que foi o nosso. Mas depois é quase abstinência o que se sente na tua ausência. Um certo vazio estranho, a falta de cor. Já estava difícil me entender neste estado de falta, não precisava daquele desfile insensível. Será que você só vê suas próprias dores? Ela chegou com uma roupa que era minha, e a substituição recente, o meu apagamento, ficaram desenhados para mim em detalhes gráficos até. O corpo tem memória e, por sua causa, eu tive que ficar de longe olhando enquanto ela, fantasiada...
_______, Será que ainda encontro palavras para te escrever? Quando a gente se conheceu, a novidade era o avistar. Que frio na barriga que me dava, e o rosto imediatamente vermelho. Lembro de sair de casa e imaginar a emoção que seria cruzar o teu caminho por acaso. E quantas horas passei no corredor, sentada, esperando o telefone tocar? Até hoje meus irmãos falam disso, eu interditava as ligações de todos eles. Nossas conversas de agora são mais práticas, trocas de mensagens telegráficas, como tem que ser. Falamos de supermercado, de lâmpadas queimadas e de contas a pagar. Estranho seria eu não te avistar um desses dias. Mas, na semana passada, lembrei daquela história engraçada do tempo da escola e você riu tanto que eu te amei como nunca. Quanto de mim, do que eu sou, você ainda não conhece? No dia em que celebro tua vida, me pego seduzida pelos corredores da tua memória que ainda não percorri. De repente, somos namorados de novo, e podemos deitar no chão, tomar uma...
_____, Quem é você nesses últimos tempos? Quanto absurdo cabe numa pessoa só? Somos ainda aquelas mesmas duas amigas que seguiam juntas em tudo? Te olho (cada vez mais de longe) e não te entendo mais. O ódio que divide o país te afasta da sensatez nas relações mais básicas e você segue dizendo que o mundo está chato, como se fosse um homem velho, machista e homofóbico. Chata está você, mas sobretudo fútil e antiética, será que não percebe? A corrupção que você vê na política não vem de impulsos muito diferentes daqueles que te levam a tentar passar a perna em mim em propostas de parceria profissional, por exemplo. Que tristeza profunda me invade ao pensar em você, prima, nessa nova versão em que você foi se transformando. Será que mudei demais também? Com as outras, as amigas de infância, dói também, mas acho que com você é pior. Não consigo entender o que houve no meio do caminho entre a nossa infância/adolescência e o agora. Sinto saudades do que éramos e fico triste em antec...