Dona Alice,

Não sei se entendi o seu nome certo. Sua fala é baixa, introvertida e, imagino, bastante silenciada.

Foi silêncio também o que me tomou quando entendi as circunstâncias terríveis do seu sofrimento.

Nesses dias de conversa, todos que conheci me falaram dos filhos que perderam. Muitos anjos, com sete anos ou menos, que por motivos obscuros não "vingaram". Fome, excesso de trabalho, falta de água tratada. “Eu tive seis filhos, mas chorei muito”, me disse uma mulher, “só um deles Deus deixou comigo”.

Nem sei se esses anjos todos tiveram nomes, mas o seu filho tinha. Tinha nome, profissão e um futuro imenso pela frente. Era conhecido pela comunidade e amado por muitos amigos, pelos pais e pelo irmão. Foi assassinado. Queria pedir sinceras desculpas à senhora por ter sugerido que teria sido história de briga. Eu ouvi tantas antes de ir à sua casa que achei de fazer essa pergunta injusta e agressiva.

Briga coisa nenhuma, foi história de amor. O amor que ele tinha dentro dele e que não prejudicava ninguém. O amor que nele era arte e alegria, mas que para os estúpidos do mundo soava como agressão ou destoar da ordem. Que ordem é essa que arranca a vida de uma pessoa porque ela ousa ser o que é?

- E do filho, não fala não?

Foi o que você perguntou ao seu marido que me contava tanto das muitas músicas que fez, do irmão e do pai que o ajudaram, de todo mundo, mas sobre o filho ausente, arrancado, ainda nenhuma palavra.

A sua dor pede escuta, e espero que ela seja acolhida.
    
De minha parte, faço um pouco tão pouco que é nada. Vou deixar aqui escrito o nome dele e, antes de dormir, rezarei para que seu descanso seja na paz que não permitiram a ele em vida.

Em memória de Manuel (Neco) e de tantos homossexuais torturados e assassinados no Brasil.    

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