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Já faz um mês que você
foi embora.
Tá bom, eu sei que a distância que nos separa não parece grande quando vista de fora. Mas lembre-se
que, desde que você chegou na minha vida – posso dizer que te coloquei no mundo,
mesmo sem ter te parido? –, nunca moramos em endereços diferentes. Agora
sinto-me uma visita em sua casa, como tem que ser, claro. Mas que estranho, não
é? Aliás, aguardo o convite para ser oficialmente uma visita, pelo menos
conhecer o cantinho que você escolheu como seu.
Enquanto isso, passeio
pela nossa casa e o silêncio me maltrata um pouco. Calma, filho, só um pouco,
faz parte.
Escrevo agora como se
conversasse contigo, é o meu jeito estranho de matar essa pontinha de saudade que
já se apresenta. Devo estar velha mesmo. Você talvez não se lembre disso, mas
teve um tempo em que tudo que você mais queria na vida era conversar comigo, juro! Acredita? Você me contava
longamente, em detalhes esquisitos, cada filme que via, cada brincadeira nova que tinha aprendido... A
volta da escola era confusa, as muitas informações escorriam de maneira animada por sua vozinha então
fina, ansiosa e saudosa. Acho que quando nos encontrarmos vou ficar um pouco
assim, desculpa.
Mas conte, conte. Como
você está? Aproveitou bem os dias de sol? Não trabalhe tanto, meu filho, assim
você vai enlouquecer. Tem se alimentado bem? Não me invente de só comer
sanduíches e coxinhas, olha o colesterol!
Tá bom, parei, parei.
Venha me ver, ingrato. Brincadeira, ingrato nada, você é o maior presente que
ganhei na vida, a luz que ilumina tudo. Pronto, agora parei mesmo. Vou passar
um café aqui e deixar de doidice. Mas me escreva, viu?
Mil beijos e o mesmo amor
de sempre da sua mãe preferida.
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